LETRAS

     
       

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LUSTRO

Dançar na Corda Bamba

H2omem

Amigos de Quem

O Sopro do Coração

Fahrenheit

Lado Esquerdo

O Sorriso de Gioconda

Gueixa

Curioso Clã

Bem Versus Mal

Depois do Amor

A Doença do Bem

Sangue Frio


"Os Clã vêem de um disco - o "Kazoo" - com uma mensagem extremamente irónica. Desta vez quisemos fazer algo um pouco mais físico, mas que também consegue ser simultaneamente mais contemplativo. Essa ideia sugere-nos um lado luminoso, uma certa ideia de brilho. É um pouco isso que sentimos ao ouvi-lo" (MA)

"Desta vez, em vez de reflectirmos sobre as coisas decidimos vivê-las. E é por isso que há um certo lado de intemporalidade nas letras." (HG)

"
(...) sem pretender ser pretensiosa sinto que nos demarcamos da maioria da música pop contemporânea na atenção que damos aos textos. Para nós, a música deve servir a letra e a letra deve servir a música. São indissociáveis. O tráfico entre ambas é constante." (MA)




1 - DANÇAR NA CORDA BAMBA

Letra: Carlos Tê

A vida é como uma corda
De tristeza e alegria
Que saltamos a correr
Pé em baixo, pé em cima
Até morrer

Não convém esticá-la
Nem que fique muito solta
Bamba é a conta certa
Como dança de ida e volta
Que mantém a via aberta

Dançar na corda bamba
Não é techno, não é samba
É a dança do ter e não ter
É a dança da Corda Bamba

Salta agora pelo amor
Ele dá o paladar
Mesmo que a tua sorte
Seja a de um perdedor
Nunca deixes de saltar

Se saltares muito alto
Não tenhas medo de cair (baby)
De ficar infeliz
Feliz a cem por cento
Só mesmo um pateta feliz

Dançar na Corda Bamba
Não é techno, não é samba
É a dança do ter e não ter
É a dança da Corda Bamba

2 - H2OMEM

Letra: Arnaldo Antunes

A gota caiu na poça
A poça caiu na lagoa
A lagoa caiu no mar
E aqui se fez
A pessoa

A pessoa caiu na outra
A outra caiu na outra
A gota caiu na gota
E o mar se fez
Da Garoa *

Agá Dois Homem
Para dentro da boca da boca da boca do rio
Correndo escorrendo para dentro do copo vazio
E do copo cheio transbordando, embalando o navio
Chovendo, jorrando, enxurrando, enchendo o cantil

Agá Dois Homem
P’ra beber e tomar banho
Agá Dois Homem
P’ra nadar e fazer sopa
Agá Dois Homem
P’ra molhar a plantação

Contra a cabeça pedra
Contra a cabeça ferro
Contra a certeza inquestionável

Agá Dois Homem
P’ra lavar a roupa suja
Agá Dois Homem
P’ra furar a pedra dura
Agá Dois Homem
P’ra chover sobre o sertão

* Garoa = Espécie de Neblina que paira sobre S. Paulo (Um parente do "Fog" Londrino)

3 - AMIGOS DE QUEM

Letra: Manuel Cruz

Lá voltaste a puxar para ti o lençol
Como que a privar meus sonhos do último raio de sol
Amigos são sobras do tempo
Que enrolam seu tempo á espera de ver
O que não existe acontecer

Mas teimas em riscar o fim do meu chão
Nunca medes a distância
Dos passos á razão
Meus votos são claros na forma
Desejo-te o mesmo que guardo p'ra mim
E o que não existe não tem fim

É só dizer e volto a mergulhar
Voltar a ler não é morrer é procurar
Não vai doer mais do que andar assim a fugir
Deixa-te entrar para tentar ou destruir

Mas quem te ouviu falar
Pensou tudo vai bem
Só que alguém vestiu a pele
Que nunca serve a ninguém
E a dúvida está do meu lado
Mas eu não consigo olhá-la e achar
Ser esse o lado em que ela deve estar

Erguemos um grande castelo
Mas não nos lembramos bem para quê
E é essa a verdade que se vê

É só dizer e volto a mergulhar
Voltar a ler não é morrer é procurar
Não vai doer mais do que andar assim a fugir
Deixa-te entrar para tentar ou destruir
Mas sem fingir
Sem fingir
Sem desistir

4 - O SOPRO DO CORAÇÃO

Letra: Sérgio Godinho

Sim, o amor é vão
É certo e sabido
Mas então (Porque não)
Porque sopra ao ouvido
O sopro do coração
Se o amor é vão
Mera dor mero gozo
Sorvedouro caprichoso
No sopro do coração
No sopro do coração

Mas nisto o vento sopra doido
E o que foi do
Corpo no turbilhão

Sopra doido
E o que foi do
Corpo alado
Nas asas do turbilhão
Nisto já nem de ar precisas
Só meras brisas
Raras

Corto em dois limão
Chego o ouvido
Ao frescor
Ao barulho
À acidez do mergulho
No sangue do coração
Pulsar em vão
É bem dele É bem isso
E apesar disso eriça a pele
O sopro do coração
O sopro do coração

Mas nisto o vento sopra doido
E o que foi do
Corpo no turbilhão

Sopra doido
E o que foi do
Corpo alado
Nas asas do turbilhão
Nisto já nem de ar precisas
Só meras brisas
Raras

5 - FAHRENHEIT

Letra: Carlos Tê

Não ouviste o fogo a arder
Não sentiste o mercúrio à Volta
A subir em flecha a subir em ti
A subir no sangue a acender o corpo
Não ouviste o chamamento
Os tambores tocando ao relento
Palcos em chamas cabelos ao vento
Incêndio de Verão
lavrando o chão

Fahrenheit a noite estala
Parte a escala
Fahrenheit a noite estala
Sente o fogo a arder
Fahrenheit a noite estala
Explode a escala
Fahrenheit a noite estala

Ouve o fogo a arder
Não ouviste o fogo a arder
Não sentiste o mercúrio à volta
Guitarras em fúria
Lanternas no ar
Vozes a cantar em tons de gasolina
Não sentiste a queimadura
Não sentiste a alma pura
Não ouviste o eco chamando outro eco
O fogo lambendo o teu coração seco

Fahrenheit a noite estala
Parte a escala
Fahrenheit a noite estala
Sente o fogo a arder
Fahrenheit a noite estala
Explode a escala
Fahrenheit a noite estala
Ouve o fogo a arder

6 - LADO ESQUERDO

Letra: Carlos Tê

O meu lado esquerdo
é mais forte do que o outro
é o lado da intuição
É o lado onde mora o coração

O meu lado esquerdo
Oriente do meu instinto
É o lado que me guia no escuro
É o lado com que eu choro e com que eu sinto

Meu é o meu foi o meu lado esquerdo
Que me levou até ti
Quando eu já pensava
Que não existias para mim no mundo

O meu lado esquerdo não sabe o que é a razão
É ele que me faz sonhar
É ele que tantas vezes diz não

Meu é o meu foi o meu lado esquerdo
Que me levou até ti
Quando eu já pensava
Que não existias para mim no mundo

7 - SORRISO DE GIOCONDA

Letra: Carlos Tê

Para quem sorri Mona Lisa
Para quem sorri Gioconda
Alguém diga se souber
Levante o dedo e responda
É sorriso de mulher
Que tem o mundo na mão
Sabe tudo sobre o desejo
Mas faz de conta que não

A quem dará Gioconda
seu sorriso de cortesã
Será que mo dá só a mim
mal vem o sol da manhã

Para quem sorri Mona Lisa
Está tão longe tão perto
Para quem sorri Gioconda
Para quem sorri ao certo

Talvez sorria para alguém
Escondido ao fundo da sala
Aquele amante furtivo
Que planeia roubá-la
Não sei se sorri para longe
Para lá do mal e do bem
Será que sorri por sorrir
Um sorriso para ninguém

Para quem sorri Gioconda
Está tão longe tão perto
Para quem sorri Gioconda
Ninguém sabe ao certo

8 - GUEIXA

Letra: Carlos Tê

Deixa que o amor te apanhe
Na teia fatal da sua mão
Deixa que o amor se entranhe
Na terra seca do coração

Deixa que o amor te banhe
No seu sabonete de água e sal
Deixa que o amor te arranhe
Com as suas unhas de animal

Sombras brancas como sedas tristes
Estão no teu olhar
Nuvens cinza num céu claro
Que eu quero limpar

Soubesse eu de amor
Como sei cantar
Dava-te o fulgor
E o ritmo do mar

Deixa que o amor te canse
Até à suave exaustão
Deixa que o amor te lance
às feras que inventam a paixão

Soubesse eu de amor
Como sei cantar
Dava-te o fulgor
E o ritmo do mar

Sombras brancas como sedas tristes
Estão no teu olhar
Nuvens cinza num céu claro
que eu quero limpar

Soubesse eu de amor
Como sei cantar
Dava-te o fulgor
E o ritmo do mar

9 - CURIOSO CLÃ

Letra: Hélder Gonçalves

Curioso Clã saltas do divã
Para que o dia dê quando pegas na pá
Curioso Clã ainda danças o tchan
Quando a moda já é vã e o mote já não dá
Curioso Clã saltas como uma rã
Fé ante fé até ao dia D
Curioso Clã
Corpo cristão em mente pagã

Afastas da tua mão um revólver com limão

Curioso Clã quem te viu já não te vê
Vendeste a tua alma a satã
P'ra apareceres na TV, queres fazer um CD
Que um dia te dê a fama do tchan
Curioso Clã o mundo é um écran
Que não te dá altos voos
Prende-te ao chão
E gira gira torna a girar
E tu só tens enjoos

Vendeste a tua alma a satã
Furioso Clã Glorioso Clã Duvidoso Clã

Curioso Clã já mordeste a maça
Era só um isco, o primeiro risco
Curioso Clã saltas como uma rã
Fé ante fé para que um dia dê
Para apareceres na TV
Para fazeres um CD
Para alcançares a glória do tchan
Curioso Clã despede satã
É ele que ao fim da semana
Te põe mel no chá

Afastas da tua mão um revólver com limão
Vendeste a tua alma a satã
Duvidoso Clã Curioso Clã Furioso Clã
Duvidoso Clã Curioso Clã Furioso Clã

10 - BEM VERSUS MAL

Letra: Carlos Tê

Talvez me vá arrepender
Do que a seguir vou dizer
Não sei se vais gostar de ouvir
Mas já que estás a insistir

Perguntas porque razão
Há dias em os dias são
Como baloiços de Bem e Mal
De manhã tem-se o mundo aos pés
À noite cai-se do pedestal

Mas o mal
Tem costas largas
E o bem
Tem pés de barro

Até a flor mais bem-aventurada
P'ra nascer mais perfumada
Se aduba no inverno cão
Para romper bela do chão

Porque o choro e o riso
Estão mais perto do que julgas
E há quem diga que é preciso
Comer o deserto às fatias
P'ra alcançar o paraíso

Porque o mal
Tem costas largas
E o bem
Tem pés de barro

11 - DEPOIS DO AMOR

Letra: Carlos Tê

Se me rio depois do amor
Não é zombar do sagrado
É puro contentamento
De algo que me foi dado
É só o deslumbramento
Dum momento revelado

Mal é depois do amor
Não haver vestígio dele
Cresce por dentro um vazio
Que nem as palavras preenchem
Suspensas por um fio

Depois do amor
Se eu me rir
Depois do amor
Se eu me rir

Da próxima vez que me rir
Já sabes foi o amor que cedeu
Da próxima vez que me rir
É porque o amor me inundou
E a sua água em nós correu

E o melhor veio depois
Porque então ríamos dois

Depois do amor
Se eu me rir
Depois do amor
Se eu me rir
Depois do amor
Se eu me rir

12 - A DOENÇA DO BEM

Letra: Manuel Cruz

Tentei esconder a minha raiva
De mim, por ti
Não sei por quem o fiz
Avançou meus braços
Como a cura para o bem
E eu não quis deixar

Em ti pensei ouvir a minha voz
Meu ar, tão só
Tentando ser feliz
Diz quais os teus planos
Quem vais tu matar no fim
Quando eu acordar

Depois de ver o que acabou
De que vai valer a minha voz
Será que o bem nos faz sofrer
Por nunca o vermos existir em nós

E é tão bom sentir de novo o teu calor
É tão maior que o mais profundo amor
E é isso que me assusta
Ver-te assim denunciar
Quem eu não quis ser

E a mesma luz que nos guiou
Que nos trouxe aqui
Devolve-nos ao escuro
Antes do meu corpo arder
Sem promessas de um futuro
Só eu e os meus planos
Sem nenhum sinal de ti
Para me salvar

Depois de ver o que acabou
De que vai valer a minha voz
Será que o bem nos faz sofrer
Por nunca o vermos existir em nós

O que vai valer
Porquê esconder a minha raiva
O que vai valer
Isso é fugir da minha sombra

Depois de ver o que acabou
De que vai valer a minha voz
Será que o bem existe em nós

13 - SANGUE FRIO

Letra: Carlos Tê

Tu nunca choras ao ver sangue
Tu nunca sangras quando sofres
Guardas a dor dentro do cofre

Se alguém decifra o segredo
E se pica no teu ferrão azedo
Tu lambes-lhe o sangue do dedo
Tu nunca choras ao ver sangue
Tu nunca ficas transparente
És daquela raça tão rara
Que tem no olhar o gelo quente

Se alguém te atinge o coração
Aguentas o baque
De frente
E sentes uma oscilação

Defendes-te com uma paixão competente
E encarnas tão impunemente
A pele de um animal de sangue quente
Que ama a sangue frio

Tu nunca choras ao ver sangue
Tu nunca ficas transparente
És daquela raça tão rara
Que tem no olhar o gelo quente
Gelo quente
Quente e frio