1 - A GRANDE PIRÂMIDE 
Letra:
Carlos Tê
Estuda essa lição
sobe cada degrau
do conhecimento
para seres alguém
para teres o teu momento
vais ter de subir
custe o que custar
qualquer meio vale
para lá chegar
à grande pirâmide
à grande pirâmide
depois de subir
tu vais saber tudo
mas não vais ter tempo
de perceber nada
porque o que te informa
não é conhecimento
é tradição e norma
sem questionar a forma
à grande pirâmide
vais querer chegar
à grande pirâmide
depois de lá chegar
não penses duas vezes
não fiques para trás
tu és um gladiador
vais ter um carro preto
com dois mil de motor
e uma vivenda murada
depois de lá chegar
depois de lá chegar
podes ver o nada
depois de lá chegar
podes querer saltar
da grande pirâmide
podes querer saltar
da grande pirâmide
já te falta o ar
à grande pirâmide
á grande pirâmide
2 - O HABITO DO MONGE 
Letra:
Carlos Tê
É difícil ser bom monge
num mundo de encher a vista
como é difícil fazer surf
num mar de ondas sem crista
e quando se cai muitas vezes
o mal está no surfista
mal daquele que cai muito
não é visto só avista
e já Arquimedes dizia
se não houver nada por baixo
só lhe resta o estilista
ai o monge anda aos papeis
em busca do hábito certo
mas a beleza tem rígidas leis
oitenta e seis
sessenta oitenta e seis
vê o grego no pedestal
está o segredo na pedra
ou no cinzel do criador
está no hábito ou no monge
no papel ou no actor
há tanta gente infeliz
a vestir no sitio certo
que por mais tons e feitios
hão-de ser sempre imperfeitos
e há os da Feira da Ladra
que parecem ser os eleitos
ai o monge anda aos papéis
em busca do hábito certo
mas a beleza tem leis
oitenta e seis
sessenta oitenta e seis
3 - GTI (GENTLE, TALL
& INTELLIGENT) 
Letra:
Carlos Tê
O sonho dos meus amigos
é ter um GTI
não importa de que marca
de que cor
o sonho dos meus amigos
é ter um GTI
não importa se inglês ou japonês
eu ando pensativo
porque não tenho esse sonho
ando a pensar qual o motivo
porque não sonho com um GTI
o sonho dos meus amigos
é ter um GTI
não importa de que marca
de que cor
o sonho dos meus amigos
é ter um GTI
não importa se inglês ou japonês
os meus amigos riem-se de
mim
por ser feliz assim sem sonhar com um GTI
eles não sonham que me basta ter-te a ti
a sonhar comigo desde que te conheci
o sonho dos meus amigos
é ter um GTI
não importa de que marca
de que cor
o sonho dos meus amigos
é ter um GTI
não importa se inglês ou japonês
desde que seja um GTI
desde que seja um GTI
p'ra que quero um GTI
se me basta ter-te a ti
eu não quero um GTI
deita fora o GTI
p'ra que quero o GTI
só me basta ter-te a ti
4 - CÓDIGO DE BARRAS 
Letra:
Carlos Tê
Deixa que o silêncio faça
parte de nós
deixa que o silêncio
seja parte de nós
funda e indizível
porque não estamos sós
apenas a só
e até se dispensa a voz
deixa que ele seja
um espelho fiel
do que sinto por ti
basta um gesto de mão
só um olhar
p'ra mostrar a paixão
e se eu te mentir alguma
vez
é porque nos lançam amarras
é para iludir o video oculto
que nos segue lá do alto
e nos traduz em barras
num código de barras
num código de barras
assim nem eu nem tu
teremos um amor captável
pelo serviço secreto
será indetectável
jamais será cifrável
ao abrirmos a boca
será como o previsto
e até a felicidade
será a que anunciam
na publicidade
e se eu te mentir alguma
vez
é porque nos lançam amarras
é para iludir o video oculto
que nos segue lá do alto
e nos traduz em barras
num código de barras
num código de barras
5 - LOJA DE PORCELANAS 
Letra:
Carlos Tê
O que fazia um elefante
na tua loja de porcelanas
sei que não me vais dizer
foi por ele que tu me
trocaste
e eu nunca soube porquê
nem nunca virei a saber
às vezes a beleza dói
quando o olhar reflecte
o que o coração inventou
o que fazia um elefante
na tua loja de porcelanas
sei que não me vais dizer
entrou e saiu pela frente
deixou tudo em pantanas
e tu voltaste a sofrer
e quando o ideal cai
tudo aquilo que promete
nunca acontece
6 - O MEU ESTILO 
Letra:
Carlos Tê
Eu quero furar a narina
usar uma argola no umbigo
tingir-me de purpurina
e andar pela rua contigo
quero furar o mamilo
tatuar um peixe no braço
afirmar lá o meu estilo
e demarcar o meu espaço
eu quero ser afro-zulu
mostrar na pele o meu tabu
eu quero usar um brilhante
nas nuvens do céu da boca
mas a minha mãe não gosta
porque é demasiado barroca
ela não sabe a angústia
que esta diferença me poupa
não vou ser o zombie cinzento
que ela tem no guarda roupa
eu quero ser afro-zulu
mostrar na pele o meu tabu
quero ser afro-zulu
nativo urbano industrial
mostrar na pele o meu tabu
ser por direito um ser tribal
quero ser afro-zulu
nativo urbano industrial
mostrar na pele o meu, tabu
eu quero ser afro-zulu
mostrar na pele o meu tabu
7 - PROBLEMA
DE EXPRESSÃO 
Letra:
Carlos Tê
Só pra dizer que
te Amo,
Nem sempre encontro o melhor termo,
Nem sempre escolho o melhor modo.
Devia ser como no
cinema,
A língua inglesa fica sempre bem
E nunca atraiçoa ninguém.
O teu mundo está
tão perto do meu
E o que digo está tão longe,
Como o mar está do céu.
Só pra dizer que
te Amo
Não sei porquê este embaraço
Que mais parece que só te estimo.
E até nos
momentos em que digo que não quero
E o que sinto por ti são coisas confusas
E até parece que estou a mentir,
As palavras custam a sair,
Não digo o que estou a sentir,
Digo o contrário do que estou a sentir.
O teu mundo está
tão perto do meu
E o que digo está tão longe,
Como o mar está do céu.
E é tão difícil
dizer amor,
É bem melhor dizê-lo a cantar.
Por isso esta noite, fiz esta canção,
Para resolver o meu problema de expressão,
Pra ficar mais perto, bem mais de perto.
Ficar mais perto, bem mais de perto.
8 - MELANCHOLIA 
Letra:
Carlos Tê
Um poente da cor do passado
um sépia quase sangue
um olhar sonolento para longe
um horizonte perdido
uma torre tombada
no xadrês
do tempo
não há como voltar
à grandeza de ontem
e cai a nostalgia
como concha vazia
que a maré deixa aos pés
e rói a melancolia
um barquinho moderno no mar
com alma de argonauta
um herói cego por tanto ver
um velho sem comer
uma canoa no Tejo
um fado na taberna
e cai a nostalgia
como concha vazia
que a maré deixa aos pés
e rói a melancolia
e cai a nostalgia
como concha vazia
que a maré deixa aos pés
velha melancolia
9 - I'M FREE 
Letra:
Keith Richards / Mick Jagger
I'm free to do
what I want any old time
I'm free to do what I want any old time
So love me hold me love me hold me
I'm free any old time to get what I want
I'm free to sing
my song knowing it's out of trend
I'm free to sing my song knowing it's out of
trend
So love me hold me love me hold me
'Cause I'm free any olf time to get what I want
So love me hold me
love me hold me
I'm free any old time to get what I want
I'm free to choose
who I see any old time
I'm free to bring who I choose any old time
Love me hold me love me hold me
I'm free any old time to get what I want
10 - ABAS DO VENTO 
Letra:
Carlos Tê
Não é impossível dançar
mesmo p'ra quem tenha
pé de chumbo
dançar é apenas um modo
mais intenso de existir
é sentir o tempo do mundo
e deixar-se ir
as ondas, a lua e a chuva
entram na roda também
o tambor do mundo
não exclui ninguém
as coisas não descansam
não desistem
felizes por existir
elas dançam
nas abas do vento
deixam-se ir
sem pensamento
quase a cair
mas sempre no tempo
impondo um quebrado nexo
dos pés às cabeças
tabuada do sexo
Maputo ou Moscovo
Rio ou Pequim
a dança passa por nós
e nós dizemos sim
nas abas do vento
deixa-te ir
sem pensamento
quase a cair
mas sempre no tempo
nas abas do vento
deixar-se ir
sem pensar
quase a cair
mas sempre no tempo
11 - SEM FREIO 
Letra:
Carlos Tê
Como garranos num prado
como crianças no recreio
sem culpa sem pecado
sem decoro nem asseio
como cometas lustrosos
numa overdose de luz
como dois cristos formosos
juntos e ao vivo na cruz
fomos amantes sem freio
na curva dos dias
derrapando sem receio
na triste curva dos dias
como um poente na praia
em queda livre de Outono
como o dançarino da noite
cheio de fumo a de sono
como o sonho adolescente
que embate no mar real
ao ver a paixão ardente
perder-se no areal
fomos amantes sem freio
na curva dos dias
derrapando sem receio
na triste curva dos dias
como o acto teatral
da peça que tudo diz
um Shakespeare total
onde ninguém fica infeliz
porque o amor se cansou
acabar é então o preço
só a tragédia é bonita
só ela traz outro começo
fomos amantes sem freio
na curva dos dias
derrapando sem receio
na triste curva dos dias
12 - CROMO 
Letra:
Carlos Tê
Quando atravessas a noite
com um toque de erotismo
és figura de tomo
do moderno romantismo
cromático, sintático
dá vida à cidade morta
que vê concursos na t.v.
com trancas atrás da porta
não és hetero
não és homo
tu és um cromo
eu adoro cromos
tu és o delírio da fauna
que se destila na sauna
nessa pose alternativa
de conquista e abandono
uma coisa te motiva
é ser cromo de serviço
estético, herético
trabalhas muito para isso
não és hetero
não és homo
tu és um cromo
eu adoro cromos
colecciono-os
quando atravessas a noite
com um toque de exotismo
nessa pose alucinada
de quem passeia no abismo
um cromo cromatiza a noite
cromático, sintatico,
exótico, caótico,
prático, Caótico
peripatético
não és hetero
não és homo
tu és um cromo
eu adoro cromos
colecciono-os
13 - CAUBÓI SOLIDÁRIO 
Letra:
Carlos Tê
Venho do deserto
do reino dos cactos
lá onde brota a virtude
e a pureza dos actos
sou um caubói solidário
venho salvar a cidade
puxo do meu breviário
e vou pregar a verdade
o que me prende ao humanos
é a salvação dos maus
prefiro o cheiro do gado
e o silvo dos lacraus
caubói, caubói solidário
faz chegar a toda a parte
o longo braço da moral
atravesso o rio Bravo
e na rua principal
da cidade perdida
travo um duelo mortal
com o egoísmo reinante
com os agentes do mal
e sem olhar para trás
com medo da estátua de sal
digo adeus à mulher
salva da perdição
que me pede o meu amor
mas eu nem lhe dou atenção
ele é um caubói solidário
faz chegar a toda a parte
o longo braço da moral
caubói, caubói solidário
faz chegar a toda a parte
o longo braço da moral
parto sem recompensa
sem conferência do imprensa
no meu cavalo lendário
sou um caubói solidário
sou muito mais que rotário
não quero ficar na história
quero voltar ao deserto
sem a gordura da glória
para o conforto dos cactos
para os escorpiões
se precisarem de mim
eu ouço as vossas orações
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